Jokebed L. Taveira
Mas afinal, do que se trata? Doença da Modernidade? Mal súbito? Estratégia norte-americana? Nova religião ou filosofia de vida? De certo ponto de vista, pode sim ser uma doença da modernidade. Em alguns casos, apenas mal súbito. Talvez seja uma estratégia de sobrevivência humana. Alguns realizam com tanta freqüência que já o assimilaram como filosofia de vida. Todavia, esta é uma pratica tão antiga e companheira da espécie humana quanto a covardia e o comodismo.
Trata-se de uma tática milenar de caráter simbiótico, isso mesmo ─ uma relação mutuamente vantajosa. É vantajosa ao covarde que dela faz uso porque assim sofre menos, e vantajosa à outra parte porque assim tira o proveito que quiser sem ser importunado. Viu, mas finge que nada viu. Sentiu, porém sufocou a dor. Repete a si mesmo sempre a tarimbada frase: “o que os olhos não vêem o coração não sente”.
O silêncio é a morte, o morto nunca discorda. Jamais tem algo a dizer. Está sempre de acordo. A morte mnemônica, diferentemente da morte física não é um rito de passagem, não é algo natural. A amnésia não pode ser tida como morte mnemônica, pois sendo resultado de um acidente, ou de uma doença, é reversível. O suicídio mnemônico é um caso bem mais especifico. Assassino de lembranças, sufocador ideais, o suicida mnemônico mata toda e qualquer forma de racionalização que conteste a “ordem” vigente. É o típico jovem revolucionário que se transmuta em velho reacionário. Corrompido pelo poder, aliás, na maioria das vezes pelo conforto advindo do poder, torna-se um suicida mnemônico.
Mesmo quando senil ou esquizofrênico, o ser humano continua a ter lembranças, e freqüentemente recorre a elas. Sem a lembrança não há história, não há seqüência, apenas a efemeridade de uma vida sem memória.
Se se morre um pouco a cada dia, se acertar é melhor que errar, se o conhecimento é o que nos torna superior aos outros homo sapiens, por que então se acomodar, se amordaçar diante das discrepâncias, das incoerências aberrantes quando estamos assistindo ou somos atores co-adjuvantes do espetáculo? A vida se dissolve em um suspiro e cada um de nós, uns por mais e outros por menos tempos, mas todos de alguma forma seremos lembrados. Cabe-nos, contudo, enquanto vida tivermos, fazer a seguinte introspecção: nossas ações (e também omissões) nos farão ser lembrados como canalhas, ou como homem, como mulher? Independente da resposta, um dado é relevante: na cultura ocidental capitalista moderna, que por acaso é a cultura na qual estamos inseridos, o suicida é sempre lembrado como um fraco.
Eis que em tempos cibernéticos, época do novo, da exaltação da novidade, ganham cada vez mais força novas adaptações à personalidade como é o caso do caráter versátil. Funciona da seguinte maneira: o sujeito adota como seu determinado tipo de caráter dependendo do contexto em que vive, ou seja, o sujeito adota determinadas posturas necessariamente desconexas, incoerentes, ignorando qualquer forma de ascensão de caráter, se é que isso é possível, em prol do que lhe é mais vantajoso. Nasce assim o caráter virtual cujas características são: a versatilidade, volatilidade, egoísmo exacerbado e autoritarismo.
Normalmente quando uma criança se torna adulto percebe que não há graça nenhuma em se jogar futebol apenas por ser o dono da bola. Agora visualize um adulto com uma bola debaixo do braço, observando uma roda de homens chutarem uma latinha de cerveja em lugar de uma bola. Se aproxima, e na qualidade de dono da bola e oferece-a com a condição de que participe de todas as rodadas. Mas o dono da bola é um perna-de-pau, um ex-garoto mimado, misantropo, que nunca aprendeu a jogar. Então, sabendo disso os jogadores dispensam a ambos, a ele e a bola. Isso porque sabem que mais importante que a textura e forma da bola são as pessoas que estão à sua volta.
Chega o dia em que ser o dono da bola não é mais suficiente para entrar ou pôr alguém no jogo.
Nenhum comentário:
Postar um comentário